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RECIFE, PE (FOLHAPRESS) – Em desvantagem na largada do segundo turno no Recife, o deputado federal João Campos (PSB) mudou o tom. Numa encruzilhada imposta pelo novo desenho da disputa, saiu de cena o candidato que prometia oferecer uma proposta a cada agressão sofrida e entrou em ação um João no ataque com forte teor antipetista.

A estratégia de bater com força no PT é considerada pelo PSB a cartada mais importante para vencer a disputa contra Marília Arraes (PT), neta do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes e prima de João Campos. A ofensiva, segundo fontes da própria sigla, é bastante arriscada.

O PT, que nas palavras recentes de João Campos não pode falar em corrupção porque sequer é possível contar nos dedos das mãos a quantidade de pessoas do partido que foram presas por desvios, participa do primeiro escalão do governo Paulo Câmara (PSB) e, até outubro, também do prefeito do Recife, Geraldo Julio.

Nas primeiras inserções publicitárias do segundo turno na TV, a propaganda de João Campos diz que o PT nacional já está de malas prontas porque sonha em mandar no Recife.

"Você lembra quem faz parte do PT nacional? José Dirceu, Gleisi Hoffmann, Mercadante. Pense antes de votar. Eles querem voltar", diz a propaganda, que mostra um avião decolando em direção à capital pernambucana.

"É de causar estranheza uma candidata do PT falar em corrupção", disse João Campos durante um dos debates. No discurso após o resultado do primeiro turno, falou que o Recife sabe o que as "arengas do PT" causaram à cidade.

O PSB integrou o primeiro escalão das três últimas gestões petistas no Recife, de 2001 a 2012. Ocupou a vice do petista João da Costa, que saiu muito mal avaliado, entre 2009 e 2012.

Em 2018, Campos esteve, já no primeiro turno, com o petista Fernando Haddad na disputa presidencial e na campanha Lula Livre.

Quando esteve em Pernambuco, em novembro de 2019, após ser solto, Lula participou de almoço com Campos e sua mãe, Renata, além de Geraldo Julio, com direito a fotos.

Em 2018, a partir de Pernambuco, foi costurada aliança entre PT e PSB para que Marília Arraes não disputasse o governo contra Câmara.

Obedecendo ordens de Lula, Marília foi retirada da disputa em troca do não apoio do PSB nacional a Ciro Gomes (PDT) na disputa presidencial. O pedetista, inclusive, estará no Recife neste domingo (22) para participar de ato de apoio a Campos.

Na época, classificou o acordo entre PT e PSB como violência. "Tirar alguns segundos de mim cortando o pescoço de uma jovem mulher pernambucana politizada, neta do Miguel Arraes, eu acho de uma violência que, na minha longa estrada, nunca vi coisa igual."

A temperatura bastante elevada da campanha chegou às ruas. Na quinta-feira (20), o Recife amanheceu coberto por cartazes apócrifos colados em vários pontos da cidade.

Em um deles, aparece a imagem de Marília Arraes e a mensagem "PT nunca mais". Em outro, o ex-presidente Lula com uma imagem em referência à falta de um dos dedos na mão do petista e a palavra "basta".

A Justiça Eleitoral foi acionada. Ainda não há identificação de quem foi o responsável pelo ato. Em 2014, logo após a morte de Eduardo Campos, vários muros do Recife foram pichados com a frase: "O PT matou Eduardo".

Na primeira etapa da disputa, o candidato do PSB foi o alvo preferencial. Encampou a estratégia de não citar os nomes dos concorrentes e nem responder aos ataques.

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Na propaganda, enquanto os dois candidatos da direita se atacavam mutuamente e ele se defendia, Marília corria solta sem ser fustigada por ninguém. No início desta semana, João Campos viu a prima jogar politicamente e conseguir avançar no campo conservador e evangélico com apoios do PTB, PL e Podemos.

A estratégia de comunicação da campanha do candidato começou a ser questionada em reserva dentro do próprio PSB assim que as urnas mostraram uma diferença de apenas 1,2% entre os primos. Houve algumas turbulências internas. Nos bastidores, uma ala defende que a gestão de Geraldo Julio, muito mal avaliada nas pesquisas, deveria ter sido explorada de maneira mais enfática.

Uma fonte bastante próxima à família Campos e que sempre foi muito ligada a Eduardo Campos diz que a estratégia de pancadaria desmedida no PT pode se mostrar um erro. A avaliação é de que o PSB perdeu tempo em não desconstruir Marília na sua atuação parlamentar e apontar contradições de sua trajetória, o que só começou a ser feito agora.

Na propaganda, Geraldo e Câmara foram escondidos no primeiro turno. Geraldo sofreu desgaste após operações da Polícia Federal na Prefeitura do Recife. As investigações apontam indícios de desvios de recursos públicos destinados ao combate da pandemia.

O núcleo decisório da campanha é formado por Geraldo, pelo secretário chefe da assessoria especial do governador, Antônio Figueira, e pelo próprio Campos.

O deputado também escuta bastante o argentino Diego Brandy, responsável pela formulação de pesquisas desde 2006, quando Eduardo tornou-se governador de Pernambuco pela primeira vez.

O argentino ganhou fama por nunca errar projeções. Nos bastidores, após desempenho do candidato no primeiro turno abaixo do esperado, fontes do PSB começam a questionar seu trabalho. Identificam que, sem a leitura certeira de Eduardo, há deslizes na linha estratégica.

Bisneto de Miguel Arraes, Campos entrou na política em 2018. Naquele ano, fez sua campanha se autointitulando "o filho da esperança". Obteve expressivos 460.387 votos. Em 1986, quando Arraes venceu a disputa pelo governo de Pernambuco após voltar do exílio, um dos slogans era "a esperança está de volta".

Ao se lançar na vida pública, aos 24 anos, contou com o apoio intenso do governador Câmara e do prefeito Geraldo.
O espólio eleitoral familiar fez com que ele conseguisse a maior votação da história do estado. Superou, inclusive, o bisavô, que, em 1990, teve 339.158 votos.

Na reta final do primeiro turno, a imagem do pai foi usada com intensidade. Campos reproduz frases que Eduardo usava bastante. Um delas é "tô pegado no serviço", que virou bordão de campanha.

Em reuniões, assim como fazia o pai, está sempre anotando números. Campos precisou gastar alguns minutos dos programas para dizer que, apesar de muito jovem, se sentia preparado para governar o Recife.

Na vida pública, teve apenas duas experiências. Foi chefe de gabinete de Câmara e exerce há pouco menos de dois anos mandato de deputado federal.

Ele faz um esforço contínuo para não parecer tutelado por Geraldo. Em debate numa rádio local, foi confrontado pela sua prima sobre esse ponto.

"Eu nunca me dobrei nem ao PSB, na época em que mandava e desmandava nesse estado. (….) Agora, você, ninguém sabe se quem vai mandar é sua mãe, é Geraldo Julio, é Paulo Câmara", disse Marília.

Há uma disputa entre Campos e a petista pelo legado de Arraes. Os filhos do ex-governador, de maneira geral, são bastante discretos em relação ao embate familiar.

Desde o início, havia uma preocupação do PSB que a questão familiar aumentasse a temperatura da disputa no Recife e pudesse atrapalhar os planos do candidato do PSB.