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Considerada uma das regiões mais violentas de Fortaleza, a comunidade de Vila Velha é dominada por facções rivais que disputam entre si o território onde vivem mais de 67 famílias, na Zona Oeste da cidade. Segundo moradores, quatro facções atuam na região.

A visita à comunidade é feita sob tensão: olheiros passam o tempo todo espiando “intrusos”, e é possível observar bocas de fumo funcionando em plena luz do dia.

A capital cearense é, segundo o último ranking da ONG mexicana Segurança, Justiça e Paz, divulgado em 2016, a 12ª cidade mais violenta do mundo e a mais violenta do Brasil, com taxa de 60,77 homicídios por 100 mil habitantes.

Em Vila Velha, jovens que fazem parte de facções são impedidos de frequentar áreas controladas por gangues rivais. Entre os relatos dos moradores há, ainda, histórias de crianças que não têm relação alguma com o crime e que não conseguem sair de casa, nem mesmo para ir à escola.

Um projeto, no entanto, pretende mudar o futuro da nova geração de Vila Velha. Criado há oito meses, o Atitude Legal atende 640 crianças com idades entre 2 e 12 anos, a maioria vítima de violência doméstica.

No projeto, as crianças atendidas têm aulas de música, ganham festas de aniversário e podem brincar com segurança. O atendimento também é estendido aos pais, que participam de grupos de conversa e fazem aulas de pilates.

“Vamos abordando todo o ciclo da violência, na esperança de reduzir a violência dentro de casa e, quem sabe, fora dela e no futuro também”, conta Francis Helen Freire de Sousa, coordenadora do projeto.

Fruto de uma parceria entre o Instituto da Infância (Ifan), organização sem fins lucrativos com sede em Fortaleza, e a ONG alemã Kindernothilfe (KHN), o Atitude Legal conta hoje com duas unidades de atendimento em Vila Velha. A maior delas, o Centro de Integração Social (CIS), existe na comunidade há 24 anos, desde a chegada dos primeiros moradores.

“É o nosso cantinho de desabafo. Nossas crianças não circulam por medo, então temos que criar o ambiente mais agradável possível para elas dentro de casa”, afirma Elisabete Costa, de 31 anos. Ela vende bolos na calçada de sua casa e tem três filhos, de 14, 4 e 2 anos.

Assim como outras mães que se reuniram no CIS, Elisabete nega qualquer abuso contra os filhos: ela fala em “castigos de cinco horas de duração” e, às vezes, “algumas palmadas”. Mas agora, diz ela, aprendeu que “conversar é o melhor remédio para educar”.

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“Os adultos precisam ouvir a criança. Temos que dar carinho e atenção, o nosso melhor”, afirma ela.

Nayara Stephanie Andrade de Souza, de 7 anos, frequenta as aulas de música do projeto e sabe a letra da música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga. “Por que tamanha judiação?”, canta Nayara, com emoção, provocando reflexão nos adultos.

A procura pelo projeto foi tão grande que os assistentes sociais decidiram abrir um novo centro de acolhida. Inaugurado há três meses, o segundo galpão fica a poucos metros do CIS e lá são atendidas as crianças que vivem em uma área dominada por uma facção rival à que controla o território onde está o centro principal.

“O Estado não chega na área em que está esse segundo galpão. Não vai profissional de saúde, só vem a gente de assistente social. Muitas crianças não conseguem nem sair de casa para ir à escola. É muita vulnerabilidade”, diz Francis.

A primeira análise quantitativa do impacto do projeto será feita em janeiro de 2018. Além das atividades diárias, o Atitude Legal está na fase de catalogar as famílias e realizar entrevistas. Mas já há relatos importantes de mudança de comportamento de pais e crianças, diz a coordenadora. Uma vitória qualitativa.

Tudo aconteceu graças ao esforço de Gloria Maria Silveira dos Santos, de 49 anos, moradora de Vila Velha “desde as primeiras invasões”. Ela, que diz ter “peito de aço”, consegue circular livremente pela comunidade, em meio a todas as facções. “As crianças precisam pelo menos conseguir brincar”, explica.

Foi ela que, no início da formação da Vila Velha, há 24 anos, viu que a comunidade precisava de um centro comunitário. E foi assim que nasceu o CIS, que hoje abriga o Atitude Legal. No local, diz ela, nunca foi registrado um episódio de violência.

Para a coordenadora do projeto, o trabalho em conjunto com a comunidade é essencial. “Tivemos que buscar essa parceria com a comunidade para fazer a coisa funcionar. Não podemos deixar de ir a locais porque o Estado não vai. Se deixarmos de trabalhar em um lugar por causa de violência, ela terá nos vencido”, conclui Francis.

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