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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As curvas de juros futuros para cinco e nove anos voltaram a atingir os dois dígitos nesta semana e recuperaram os patamares de 2018, último ano das eleições presidenciais que elegeram Jair Bolsonaro (sem partido).

O movimento acompanha os avanços da inflação e o recrudescimento das tensões políticas e fiscais no país.
A curva de juros futuros é a expectativa do mercado para a Selic (taxa básica de juros).
Segundo dados da Bloomberg, a projeção para a curva de juros futuros para cinco anos ficou em 10,44% ao ano nesta quarta-feira (18) -contra os 10,03% observados na véspera e os 6,05% projetados no começo do ano.

Já as previsões das taxas para nove anos ficaram em 10,93% ao ano. A projeção era de 10,52% na véspera e de 7,05% em 2 de janeiro.

"Do lado do índice de preços, o Copom [Comitê de Política Monetária do Banco Central] precisará correr atrás e subir os juros para conseguir ancorar as expectativas de inflação para o ano que vem. Se o comitê não acelerar esse processo, corre o risco de a inflação não baixar e ele precisar subir os juros ainda mais, virando uma bola de neve", afirmou o analista da Clear Corretora, Rafael Ribeiro.

O Banco Central já apontou na última ata do Copom que pretende aumentar a Selic em pelo menos 1 ponto percentual na próxima reunião, que acontece nos dias 21 e 22 de setembro. A autoridade monetária também sinalizou que fará o que for necessário para controlar a inflação e trazê-la para dentro da meta.

Hoje a Selic está em 5,25%.

Na terça (17), o BC também disse que a tendência de alta das estimativas para a inflação é gerada especialmente pelo risco fiscal -ou seja, quando os agentes econômicos entendem que o desajuste das contas públicas é significativo.

O mesmo cenário de alta acontece no risco-país. Medido pelo CDS de cinco anos, o indicador acumula uma alta de 30,35% neste ano, depois de saltar 43,6% em 2020 com a pandemia de Covid-19.

O CDS funciona como um termômetro informal da confiança dos investidores em relação às economias, especialmente as emergentes. Se o indicador sobe, é um sinal de que os investidores temem o futuro financeiro do país. Se ele cai, o recado é o inverso: sinaliza aumento da confiança quanto à capacidade que o país tem de saldar suas dívidas.

"Toda a penalização dos ativos brasileiros, como juros e câmbio, está vinculada à questão fiscal. Há uma elevação na percepção de risco em relação à condução das contas públicas, principalmente no final de agosto, quando nos aproximamos de uma data importante que é o envio do Plano de Lei Orçamentária para 2022", afirmou a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack.

Parte das discussões sobre o PLO giram ao redor da vontade do governo em seguir com o novo Bolsa Família, o Auxílio Brasil. Apesar de o governo não ter definido valores, Bolsonaro já chegou a afirmar que o benefício será 50% maior do que o atual (de cerca de R$ 190).

"E quando olhamos para as pautas dentro do Congresso, estão todas entrelaçadas. Para o governo conseguir colocar em prática o Auxílio Brasil, ele precisa encontrar espaço dentro do teto de gastos para o próximo ano. E aí vem a questão da PEC [Proposta de Emenda à Constituição] dos precatórios", disse Abdelmalack.
Os precatórios são dívidas do governo reconhecidas pela Justiça.

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O ministro Paulo Guedes (Economia) e a equipe da pasta têm elevado a pressão nas conversas com o Congresso sobre os efeitos no Orçamento do próximo ano caso o parcelamento das dívidas de precatórios não seja autorizado.

Guedes até chegou a citar, na semana passada, o risco de cometer crime de responsabilidade caso essas dívidas não fossem parceladas.

"Chegamos nos 130 mil pontos na Bolsa de Valores porque o governo conseguiu reduzir o percentual da dívida pública em relação ao PIB e, com esse projeto [Auxílio Brasil] a expectativa é que essa folga seja diluída. Isso gera um risco fiscal que também acaba sendo precificado na projeção a Selic", afirmou Ribeiro, da Clear.

"Quando pior e mais deteriorada está a saúde econômica de um país, mais o investidor quer um prêmio para comprar essa dívida, o que pressiona e acelera a curva de juros", completou o analista.

Além das preocupações em relação ao cenário fiscal do país, outro ponto de atenção que também impacta na curva futura de juros e no risco-país são as crescentes tensões políticas.

No último mês, Bolsonaro repetiu falas golpistas e falou na possibilidade de usar armas "fora das quatro linhas da Constituição", enquanto sofreu uma derrota na defesa do retorno do voto impresso e foi incluído como um dos investigados no inquérito das fake news no Supremo Tribunal Federal.

No último final de semana, um dia após a prisão de seu aliado Roberto Jefferson, Bolsonaro também disse que vai levar ao Senado um pedido de abertura de processo contra os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, do STF. Barroso também preside o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Na terça (17), depois de sofrer pressão de aliados para esfriar a crise entre os Poderes, o presidente reconheceu a independência do Legislativo e disse que não vai cooptar senadores para quem apoiem seu pedido de impeachment dos ministros.

"Tem saído coisas bem ruins de toda essa briga entre o Bolsonaro e o STF, e o mercado tem precificado isso. Então, quando sai uma pesquisa eleitoral sugerindo que Bolsonaro tem perdido cada vez mais a aceitação do público, o mercado reage não pelo presidente não ganhar [as eleições] novamente, mas sim sobre o que ele poderá fazer para tentar reverter isso", afirmou a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte.

"Medidas fiscais expansionistas sem uma contrapartida de gastos, sem dúvida afetam a leitura de risco-país e piora os preços dos ativos", completou.

As tensões políticas e fiscais também têm mexido na Bolsa de Valores. Nesta quarta-feira (18), o Ibovespa, principal índice acionário do país, encerrou em queda de 1,07%, aos 116.642 pontos.

Além do ambiente doméstico, o movimento também veio na esteira dos mercados internacionais, que caíram após a divulgação da ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sinalizar que acreditam que o patamar de desemprego para que o suporte à economia seja reduzido pode ser atingido neste ano.

No câmbio, o dólar registrou alta de 2,05%, a R$ 5,3750, refletindo a forte aversão ao risco fiscal no Brasil, o que contribuiu para o impacto no mercado de juros futuros.